
Mensagens analisadas pela Polícia Federal passaram a integrar a investigação que apura denúncia de estupro contra o desembargador Almiro José Mello Padilha, vice-presidente do Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR). O caso tramita em sigilo no Superior Tribunal de Justiça (STJ). As informações foram divulgadas pela Folha de S. Paulo.
A denúncia foi apresentada por uma servidora do TJRR e se refere a um episódio ocorrido em 2019, durante um jantar realizado na casa dela, em uma comarca do interior de Roraima. Segundo o relato, o magistrado participou do encontro acompanhado de uma assessora jurídica.
Em oitiva conduzida pela corregedoria do tribunal, a assistente confirmou que presenciou a relação sexual, mas afirmou que tudo aconteceu de maneira consensual.
De acordo com a investigação, as duas servidoras haviam sido encarregadas de acompanhar compromissos institucionais do desembargador na comarca. A assessora teria solicitado que a colega organizasse um jantar de recepção em sua residência após a confirmação da visita do magistrado.
A mulher afirmou que o desembargador chegou ao imóvel em um carro oficial do tribunal levando ingredientes para cozinhar e vinho. Horas depois do início do encontro, ela contou que foi para o quarto da casa e acabou seguida pela assessora. Conforme o depoimento, o magistrado entrou no cômodo logo em seguida.
Segundo a servidora, o desembargador tentou beijá-la e ela o afastou diversas vezes.
“Inicialmente, eu fiquei só empurrando, porque primeiro ele ficava tentando me acariciar. Acho que foi ela que me colocou na cama e, quando eu já estava na cama, ele veio para cima. Foi aí que eu comecei a dizer que não”, afirmou.
A denunciante relatou ainda que o magistrado insistiu na relação sexual mesmo após as recusas. Ela afirmou que conseguiu sair do quarto depois de ouvir um comentário sobre fotografias enviadas anteriormente pela assessora e correu para o banheiro, onde permaneceu até a saída dos dois.
O relatório parcial da Polícia Federal aponta que a investigação trabalha com a hipótese de o jantar ter sido organizado sob pretexto profissional para favorecer uma aproximação íntima entre o magistrado e a servidora. O documento também menciona diálogos encontrados no celular da mulher, cuja autenticidade foi confirmada por perícia.
Nas mensagens analisadas, o desembargador reconhece que “avançou o sinal” e afirma que “se pudesse voltar no tempo faria diferente”. A servidora respondeu afirmando que o encontro terminou de maneira que ela não desejava e disse esperar que o episódio não se repetisse.
Segundo a investigação, o magistrado voltou a procurar a mulher cerca de dois meses depois e sugeriu outro encontro. Em uma das mensagens enviadas, escreveu: “Se tiver oportunidade vou fazer de novo SEM AVANÇAR O SINAL”. Conversas mantidas pela denunciante com familiares e amigos também foram incluídas na investigação por demonstrarem sofrimento emocional após o episódio.
A denúncia foi formalizada em junho de 2025 e tramita no STJ sob relatoria do ministro Antonio Carlos Ferreira. A servidora afirmou que demorou para apresentar a acusação por medo de prejuízos profissionais e receio de represálias dentro do Judiciário estadual.
Na época do episódio, Almiro Padilha ocupava o cargo de corregedor-geral do TJRR. O STJ autorizou medidas cautelares proibindo o magistrado de manter contato com a denunciante ou se aproximar dela durante a sindicância.
Além da acusação de estupro, a Polícia Federal também investiga possíveis crimes de violação sexual mediante fraude e assédio sexual.
Em nota enviada à Folha de S. Paulo, o desembargador negou as acusações e afirmou que elas são “absurdas e infundadas”.
Com informações da Folha de S. Paulo
