
A Comunidade Morcego, na Terra Indígena Serra da Moça, vive mudanças profundas desde que as plantações de soja se aproximaram em 2018. Localizada a cerca de 60 km de Boa Vista, a comunidade, formada por 73 famílias, convive hoje com ruído constante de máquinas, poeira e o cheiro de defensivos agrícolas.
Para o líder indígena Jabson Silva, a diferença é marcante. Ele lembra que aeronaves usadas para pulverização agrícola passavam sobre as casas, episódio que teria provocado coceiras e dificuldades respiratórias em moradores. Em 2021, denúncias levaram o Ibama a multar os produtores da região e a proibir a aplicação aérea, após constatar descumprimento das normas federais. Mesmo assim, novas irregularidades foram registradas no ano seguinte.
Além dos efeitos imediatos, moradores relatam o desaparecimento de plantas nativas usadas como alimento e medicamento, como caimbé e mirixi. A produção agrícola dentro da comunidade diminuiu e muitas famílias precisaram recorrer à compra de farinha e outros itens básicos.
O caso de Morcego não é isolado. Um estudo do Instituto Serrapilheira aponta que 26 das 33 terras indígenas de Roraima estão cercadas por lavouras de soja. O crescimento está associado ao avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ampliado por investimentos em infraestrutura e demanda internacional. A área plantada aumentou mais de 500% entre 2017 e 2024, segundo o IBGE.
Os pesquisadores também analisaram impactos na biodiversidade e identificaram 1.930 espécies em 20 terras indígenas. Áreas maiores e mais isoladas tendem a manter maior riqueza ambiental, enquanto o avanço da soja reduz especialmente a presença de anfíbios e aves.
O governo estadual não se manifestou até o fechamento da reportagem.
Com informações do Brasil de Fato e Samantha Rufyno/Repórter Brasil
